Estava eu à frente do meu computador matutando sobre a realidade política cabo-verdiana e os principais desafios deste ano 2010 quando, de repente, resolvi consultar o web site do RTC. Ali deparei com o título "PRIMEIRO-MINISTRO RECUSA DEBATE COM CARLOS VEIGA" fazendo-me, imediatamente, mudar de tema.
Pensei em vários factores e dos verdadeiros motivos que levarem a RTC a querer promover um Debate entre o Primeiro-Ministro, Dr. José Maria Neves, e o Líder do MpD, Dr. Carlos Veiga, num período em que tal não se justifica tendo em conta a Agenda ocupadíssima do Sr. Primeiro-Ministro.
Além disso, Carlos Veiga só aceitou o convite depois do seu regresso de Portugal. Porquê? Esta manobra de fuga em frente e de diversão para boi dormir teve como mero propósito o de desviar a atenção da sociedade cabo-verdiana, face ao desaire veiguiano, que muitos tentaram escamotear, perante os estudantes em Portugal.
Neste aspecto, passei a compreender melhor o facto de Carlos Veiga, sempre que visita os Estados Unidos, nunca ter dado entrevistas de forma aberta e directa, chegando ao ponto de cancelar conferências de imprensa em cima da hora. Caso, porventura, ocorrido no passado mês de Novembro quando, depois da Convenção, Veiga deixou os jornalistas a ver navios.
O mais ridículo de toda esta história é o destaque totalmente despropositado que este assunto mereceu pelos jornais afectos ao MpD, fazendo crer que JMN sente algum receio em debater questões candentes da Nação com Carlos Veiga.
Agora pergunto: Será que o Dr. Carlos Veiga, um Sr. que governou o País durante dez anos, mas que em Portugal alegou não estar preparado para debater com os estudantes, estaria em condições de levar de vantagem um dos melhores Primeiros-Ministros de África?
Para quem se lembra do Debate organizado pelo Jornal “A Semana” em que JMN esteve o tempo todo mais perspicaz e lúcido do que o seu oponente, esta dúvida não existe! E é bom lembrar ao Dr. Carlos Veiga que em Democracia os debates servem para se expor projectos e ideias capazes de melhorar as condições de vida da população, mas nunca por conveniência ou satisfação do ego de cada um.
Mas a minha motivação e inspiração espontânea fizeram-me rebuscar no baú da memória a década tenebrosa, mais precisamente, numa altura em que o Carlos Veiga estava totalmente engajado em erradicar o PAICV da face da terra. Este processo teve o seu culminar na vergonhosa cabala urdida à volta das profanações de lugares de culto católicos.
Ainda me recordo de uma notícia que veio a público, em 1995, no então “JORNAL DE NOTÍCIAS”, com a sua sede em São Vicente, em que VEIGA propunha a decapitação do PAICV e as linhas mestras de operacionalização deste plano maquiavélico, da autoria do Engenheiro Humberto Cardoso, divulgada no extinto Jornal “Voz di Povo”, sob o sugestivo título “Ternura pelo inimigo”.
O Dr. Carlos Veiga, enquanto Primeiro-Ministro de Cabo Verde, sempre recusou a debater projectos e ideias com os dirigentes do PAICV, indo ao ponto de considerar de retrógrados e comunistas todos os dirigentes deste Partido. E não passou despercebido o facto de, em 1999, Pedro Verona Rodrigues Pires, enquanto Secretário-Geral do PAICV, ter desafiado Veiga para debaterem o estado da Nação que caminhava, a passos largos, para o abismo.
As recusas de Veiga persistiram até Setembro de 2000, desta vez, em relação a José Maria Neves. Agora o mesmo vem reivindicar debates! Sim, terá debate, no momento próprio, mas sem imposições e prepotência.
Caros leitores: Os Cabo-verdianos e Cabo-verdianas no País e na Diáspora não querem jamais que, em Cabo Verde, jornalistas e sindicalistas voltem a ser presos por exercerem os seus direitos, o país tenha uma reserva alimentar a não exceder um mês e boa parte dos funcionários públicos ficarem sem receber os seus ordenados em tempo. Isto, à semelhança dos anos 90, década em que vivemos em perigo.
Hoje, Cabo Verde é um país com uma economia estável, uma democracia consolidada, com desafios estimulantes e que clamam por novas respostas. Ora vejamos o que nos espera em 2010 e continuemos juntos para novas vitórias:
- ELEIÇÃO NOS EUA PARA A ESCOLHA DO NOVO CONGRESSO;
- CENSO GERAL, em que a identificação da nossa origem é fundamental para a nossa credibilidade. Se queremos ser respeitados pelos políticos americanos e fazê-los sentir que somos uma força aglutinadora e que faz a diferença, então não podemos de vacilar na hora de identificarmos como cabo-verdianos;
- ANO DE RECENSEAMENTO ELEITORAL exclusivamente para os Cabo-verdianos. Não esqueçamos que o recenseamento é abrangente, tendo em conta que a nossa Constituição nos permite ter dupla nacionalidade;
- ANO DAS COMEMORAÇÕES DO DIA DA REPÚBLICA E DOS 550 ANOS DA DESCOBERTA DE CABO VERDE;
- ANO DA IMPLEMENTAÇÃO DE MAIS PROJECTOS, FINANCIADOS PELO MILLENNIUM ACCOUNT CHALLENGE.
Por: Carlos Tavares
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