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Rebelados: Fenómeno religioso único em Cabo Verde |
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Por: João do Rosário
Em Novembro de 1941, em plena ditadura fascista de Salazar, cinco Padres missionários da congregação dos Espiritanos e o Bispo da Diocese desembarcaram na Ilha de Santiago com a clara missão de imprimir uma profunda reforma na Igreja Católica, conferindo-lhe maior rigor e sacramento.
Isto, no intuito de pôr cobro a alguns hábitos e costumes religiosos já enraizados na tradição popular, que doravante passam a ser proibidos, com o apoio dos antigos Padres.
Tal tomada de posição iria provocar a revolta de algumas pessoas e dar origem à comunidade no interior de Santiago denominada de “Rebelados”. Eles simplesmente não acatam as novas ordens da Diocese e rejeitam os novos Padres de batina branca.
Em 1959 a comunidade já tinha cerca de 3.000 pessoas e a Igreja, na pessoa do Padre Moniz, com medo de um alargamento dos adeptos da causa Rebelados, pede apoio ao administrador do Concelho do Tarrafal que, por sua vez, alertou as autoridades coloniais.
Em 1961 a situação agravou-se com o recenseamento da população e a demarcação das propriedades agrícolas, acções decididas pelo Governo central em 1955, e que são realizadas em simultâneo sem nenhuma informação aos habitantes de Cabo Verde, incluindo os Rebelados.
No ano seguinte houve também uma campanha de luta contra a malária e a pulverização de DDT no interior das casas, sem nenhuma explicação e justificação.
Paralelamente, as equipas sanitárias efectuavam recolhas de sangue para detectar as pessoas contaminadas e vaciná-las contra a BCG.
O que de início era somente uma contestação religiosa viria, posteriormente, a se ganhar uma dimensão política.
É verdade que desde 1936, o movimento Claridoso traduzia o preâmbulo de uma cultura Nacional Cabo-verdiana.
Com o surgimento da geração de Amílcar Cabral, as lutas armadas para a independência começaram nas colónias Portuguesas, nomeadamente em Angola, em Moçambique e na Guiné-Bissau.
Para as autoridades coloniais estava claro que, sob a capa de grupos Religiosos, os Comunistas preparavam a luta de libertação Nacional, pelo que ficaram sujeitos à perseguição por parte da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).
Para provocar os Rebelados a Polícia Colonial cercava as suas casas, demolia as portas e expulsava-os das suas próprias terras.
Os chefes foram detidos e alguns expatriados para outras ilhas e também para fora de Cabo Verde.
Na verdade, a toda a história dos Rebelados, revela um movimento de resistência social e cultural muito mais antigo, dando lugar ainda hoje a um fenómeno religioso único em Cabo Verde.
Tendo em conta que este ano e, sobretudo, este mês, a Nação Cabo-verdiana está a festejar os 35 anos da nossa Independência Nacional e 550 anos da descoberta do nosso País, pensamos ser justo e de bom-tom homenagear também esta comunidade, que de forma ímpar, lutou pela dignidade da Nação Cabo-Verdiana.
Mas falar dos Rebelados implica ainda reconhecer esforço meritório da artista plástica Misá que, há mais de 13 anos, luta pela integração plena da comunidade dos Rebelados no mundo moderno. Misá, a quem o Governo deveria conceder o Estatuto de Animadora Comunitária.
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